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PinturaMemória

Zaíra

“A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.” (Italo Calvino)

A [minha] pintura é um tipo de memória incrustada [cacofônica]. Ela contém em si todo o significado, mas dá pouco de si a conhecer. Perscrutamos sua superfície, a matéria sobre um suporte. Marcas da elaboração: camadas, veladuras, pinceladas. Marcas do corpo: cabelos, catarros, pele morta, gravuras dos dedos, dos cotovelos. Marcas do suporte: trama, irregularidades, contaminações oleosas. Marcas do tempo, da deteriorização. Percebemos que a superfície é crosta, impura, brutal, sexual: temporal.

Tentamos ir além e vemos a imagem, entidade sem espessura e bidimensional que parece se destacar da superfície. Acabamos capturando a imagem na nossa própria memória [ou em outras memórias, como a impressa], onde deixa de ser pintura já que alijada do seu passado.

Puxamos mais e já modificamos a imagem. Agregamos a ela nossa memória, nosso próprio filtro, criando uma camada espessa e indelével. Um filtro após o outro, tornando-a mais opaca, opaca, opaca… [E se a gente olhar na diagonal? Piada!] [Pintura/memória <-> fruidor/memória.]

A proposta óbvia para a pintura/Zaíra é impedir que a imagem se destaque da superfície.

CALVINO, Italo. “As cidades e a memória, 3” In: --. As cidades invisíveis. São Paulo, Cia. das Letras, 1990. p.14-15.