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MinhaPintura

1ª revisão: dos seres aos lugares

Parece necessário revisar a produção dos últimos três anos para compreender os aspectos mais importantes das pinturas atuais. Essa revisão é um olhar retrospectivo e por isso modifica o sentido. Quase todas as relações construídas aqui são muito recentes e não participaram diretamente do processo de produção das obras. No momento do fazer, eram outros projetos, outras forças em jogo. Na verdade, parece ser essa uma constante em arte: começar pelo meio.

Quase toda a produção de 2002 e 2003 é em pintura. Neste período, mais ou menos como réveillon, houve uma mudança brusca de uma pintura figurativa, baseada em aspectos bem definidos do tratamento da figura humana, para uma pintura “abstrata”/não-figurativa, bem mais lírica, relacionada à “grade” pictórica, às relações poéticas das cores e à noção de excesso. Os sentimentos que geraram tal modificação pareciam claros na época; hoje não mais. Daí o interesse revisionista.

Lugares sem seres e seres sem lugar

2001. Duas instalações com flores de plástico (figuras [1] e [2]) que comentavam a adequação e a organização cartesiana da natureza dentro de determinados espaços. A primeira, realizada na Belas Artes, “floria”, com colheres de Danoninho, um único ramo das trepadeiras sem flores que ocupavam quase todo o espaço interno do edifício. A outra também “floria”, agora com flores artificiais, organizadas artificialmente, uma das clareiras assépticas de concreto existentes no Parque Municipal. Ambas eram tão delicadas e pequenas que, sem um olhar mais atento, acabavam solapadas pelo lugar: na relação obra-espaço, eram lugares sem seres marcados pela construção.

No mesmo ano, dois objetos cuja existência prescindia de um lugar (figuras [3] e [4]). Eram acessórios de decoração para qualquer ambiente ou utilitários sem utilidade. Um abajur para o “apagão” e um porta-“alguma coisa”: seres sem lugar que transitavam entre o escárnio e o lírico.

Foram ensaios da dicotomia entre os trabalhos de 2002 e os de 2003. Já revelavam uma tendência expressionista na relação com seres e uma construtiva na relação com lugares. A partir destes trabalhos, parece possível esboçar todo o período como um caminho:

seres sem lugar <→ seres-lugar <→ lugares sem seres <→ lugares-ser.

Os seres sem lugar e os seres-lugar

O desinteresse pela abordagem naturalista da figura humana, ocasionou a busca por um motivo para deformar e para tangenciar as proporções de alguns seres (figuras [5] e [6]). À época, foram pensados como carrancas que agiam como se fossem madeira. Hoje, entretanto, parecem apenas seres sem lugar transitórios. O modo como “fingem” os faz parecer muito com pedaços de madeira ou pedra deslocados de seu habitat e retratados sobre um fundo neutro.

Para controlar a ausência do fundo, pareceu necessário introduzir cor (figuras [7] e [8]). O resultado foi completamente inesperado: a cor reduziu drasticamente a presença dos seres.

A cor tornou-se uma fronteira. A ausência dela determina a existência como ser; enquanto sua exuberância parece contribuir para a formação de lugares. O desaparecimento progressivo dos seres devido à introdução da cor pode ser notado nas figuras [9] e [10]. Nelas a linha passa a ser a única sustentação para os seres.

Fora da pintura, o registro de acontecimentos “Fora de lugar”, de setembro de 2002, permite vislumbrar também a transição ser/lugar. A cena “balde-pedra” (figura [11]) parece congelar o momento fugaz em que seres-lugar transformam-se em lugares sem seres.

Os lugares e os lugares-ser

Os lugares começam então a ser construídos sem qualquer pretensão, entre uma brincadeira e outra. A série “Urbana” (figura [12]) e o “Chic Dancing” (figura [13]), que foram interpretados como uma vontade de incluir os seres em lugares, acabam demonstrando justamente a impossibilidade de incluir seres sem lugar em seres-lugar. Daí, a linha definidora, cartesiana, pedagógica some! Perdeu seu sentido. Em seu lugar volto ao começo [útero seguro?] quase lúdico.

Foi uma espécie de acontecimento fundador: o terço direito do “Chic Dancing” acabou disparando uma série de reminiscências da infância: a coleção de insetos, o jogo de xadrez e a aventura de escrever “cu” (com e sem acento). Na mesma época, escrevi introduzindo um artigo:

“Criança, meu pai me ensinou a jogar xadrez e, em família, jogávamos sempre. Cheguei a ler dois ou três livros sobre o jogo, mas nunca adiantou: perdia sempre. Não me importava muito perder pois achava realmente divertido jogar. Um dia chegou o computador. Todos, coletivamente ou individualmente, tentaram ganhar da máquina ao menos uma vez. Não era um Deep Blue, mas bastou para que todos deixassem de ser Kasparovs. Desde então, a família parou de jogar: xadrez tinha ficado sem graça.” (ver "Isso é arte?")

Se escrever cu (ver AssXerox) já não é mais uma aventura, jogar contra o arquinimigo (figuras [14] e [15]) e mimetizar insetos (figuras [16] e [17]) ainda o são.

Estes dois prazeres recuperados não são sempre o tema, geralmente estão por trás dele. A tela acaba se tornando um tabuleiro em diversas camadas. Não só as áreas quadriculadas, mas também e principalmente a “grade” por trás da tela. Ocorre nela uma constante alternância de posições, um “meio-jogo” protagonizado não por insetos, mas por diversos lugares-ser.