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MeuProcedimento

Primeiro realizo desenhos monocromáticos à lápis, à caneta, ou mesmo diretamente sobre a tela; são linhas que visam formar seres. São desenhos que acompanham o pensamento, que o registram. Não proponho ao trabalho uma pré-existência; ele passa a existir à medida em que é solucionado, refletindo considerações sobre composição, equilíbrio, movimento e também sobre a figuração. No desenho os seres ainda são imediatamente reconhecíveis; logo me concentro, então, nas maneiras de fazer com que eles desapareçam, nos truques para mimetizá-los. [É o meu trompe-l’oeil às avessas!] Neste momento, a cor domina a cena. O que procuro é amalgamar os seres nas cores, transformando-os em lugares. Ao mesmo tempo, passo a brincar com os recursos da pintura, visando criar áreas de desconforto - ótimas auxiliares para conectar o observador à superfície da pintura. É o momento também de “medir” as cores visando criar sensação de movimento e interesse. O resultado buscado a partir daí é impedir que a imagem se desgrude da superfície, coagindo o fruidor a se aproximar para “entrar na pintura”.

O processo já é bem sedimentado; entretanto, há sempre expectativa pelo acidente mental ou prático. Se em qualquer momento meu pensamento é levado a pensar diferente a pintura, não titubeio, fluo segundo este novo pensamento ao invés de procurar resgatar os objetivos e idéias originais.

Em vários momentos o pensamento/pintura alcança territórios indesejáveis e ameaça revelar segredos… [Emergência!] Entretanto, não paro de pintar - para que pensar e fazer não se desconectem - mas continuo em compasso de espera. Para estes momentos, uso um sestro irônico: o quadriculado. Aparentemente racional, no meu caso, o quadriculado esconde toda uma série de conflitos, reminiscências e frustrações. [Assim como o jogo de xadrez me fazia esquecer qualquer conflito familiar.] Ele é a tarja da censura, só que um pouquinho mais sofisticada à medida que se utiliza do mito:

“For like all myths, it deals with paradox or contradiction not by dissolving the paradox or resolving the contradiction, but by covering them over so that they seem (but only seem) to go away. The grid’s mythic power is that it makes us able to think we are dealing with materialism (or sometimes science, or logic) while at the same time it provides us with a release into belief (or illusion, or fiction).” (Krauss)

KRAUSS, Rosalind E. “Grids” In: --. The originality of the avant-garde and other modernist myths. Cambridge/London, Mit Press, 1986, p.12.