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GaramondHN

Anotações para criação do meu monograma

Garamond

A Garamond ajuda a dar nome à família na qual é classificada, a das romanas garaldinas (Garamond+Aldus). Como as romanas humanistas, possui serifas triangulares nas caixas altas e oblíquas nas baixas. Diferencia-se delas pelo eixo menos inclinado, pelo maior contraste entre as hastes e pela barra do ‘e’, que é horizontal. É uma fonte de extrema leiturabilidade que se diferencia das fontes italianas imediatamente anteriores pela elegância e pela serifa delicada.

Essa classificação aparentemente segura pressupõe uma uniformidade que não existe. Muitas fontes hoje denominadas Garamond possuem, inclusive, características muito próximas às romanas transicionais sem, entretanto, ferirem a tradição.

A história da Garamond é controversa. Garamond ou Garamont (latinizar nomes foi moda no Renascimento) designa o alfabeto criado por Claude Garamond (1480-1561), utilizado pela primeira vez em edição de “Paraphrasis in Elegantiarum Libros Laurentii Vallae” de Erasmus, em 1530. É derivada da romana desenhada por Francesco Griffo (1450-1519), utilizada pelo impressor Aldus Manutius (1450-1551) para “De Aetna” do Cardeal Pietro Bembo.

Há outra Garamond, cuja origem são os romanos e itálicos “Caractères de l’Université” da Imprimerie Nationale de Paris. Uma fonte com características demasiado barrocas para o século XVI, mas atribuída a C. Garamond pelo Cardeal Richelieu no livro “Les Principaux Poincts de la Foy Catholique Defendus”.

Derivações de ambas as fontes dominaram a imprensa mundial por mais de dois séculos e sempre foram atribuídas a Garamond. Um engano que só foi corrigido em 1927, por Beatrice Warde, num artigo para a revista “The Fleuron” artigo na íntegra. Nele a pesquisadora atribui os tipos utilizados pela Imprimerie ao designer/fundidor Jean Jannon (1580-1635), usando como prova documental uma contra-capa que deixava claro tal fato.

Na verdade, Jannon realizou um novo desenho da romana itálica que, apesar de baseado na Garamond, resultou completamente distinto: os “Caractères de l’Université”, de 1615, com tipos mais assimétricos e irregulares nas descendentes e nos eixos, possuem desenho muito mais apropriado ao século XVII que ao anterior.

Depois da I Guerra, foram empreendidas diversas pesquisas sobre fontes renascentistas tanto pela American Type Founders (ATF) quanto pela Monotype (norte-americana e inglesa). Boa parte das fontes resultantes foi baseada nos “Caractères de l’Université” e chamada erroneamente Garamond. Depois do artigo de Warde, alguns designers passaram a recorrer corretamente aos conjuntos do século XVI, como Slimbach da Adobe. Outros sanaram o problema recorrendo a novos nomes, como Tschichold da Sabon. Outros ainda mantiveram o nome Garamond, apesar de se basearem explicitamente na fonte de Jannon.

A dificuldade de comprovar a fidelidade das Garamonds atuais não empobrece, mas enriquece ainda mais a mística que envolve essa fonte tão testada pelo tempo. Afinal, quanto mais controverso, mais interessante e mais contemporâneo.

Algumas derivações recentes:

Claude Garamond

Francês, 1480-1561, designer/fundidor de tipos e editor. Fundiu seus primeiros conjuntos quando aprendiz de Simon de Colines (cerca de 1510), mas só restaram exemplos daqueles usados a partir de 1530. Em 1540 foi comissionado pelo Rei Francis I para criar a “Grec du Roi” usada por Robert Estienne. De 1545 em diante trabalhou como editor, apresentando seus próprios tipos e, inclusive, uma nova cursiva. Depois de sua morte empobrecido, passou a ser considerado o mais importante fundidor do século XVI, com influência absoluta por mais de dois séculos. Foi um dos primeiros a separar a criação de tipos da impressão.

Jean Jannon

Francês, 1580-1658. Aprendeu seu ofício no estabelecimento de Robert Estienne e, a partir de 1610, torna-se designer/fundidor de tipos e mestre impressor da Academia Calvinista em Sedan, onde recebeu o título “Imprimeur de son Excellence et de l’Academie Sédanoise”. Em 1621, publicou elegante catálogo de tipos: “Espreuve des Caracteres nouvellement taillez: A Sedan Par Iean Iannon Imprimeur de l’Academie. M.DC.XXI.”

Robert Slimbach

Norte-americano, nascido em 1956, designer e calígrafo. Desenhou também: ITC Slimbach, ITC Giovanni, Utopia e Minion.

(http://www.linotype.com; http://www.unostiposduros.com/ e diversas páginas correlatas)

Letra H

Em minha casa somos dois irmãos Hélio e Hugo, filhos de Ilto sem ‘h’ e sem ‘n’. No nome singular de meu pai a ausência do sonoro ‘n’ aqui da Capital motiva constantemente confusão com nomes terminados em ‘do’. Mas parece que na infância dele o que faltou realmente foi o ‘h’, já que no Triângulo Mineiro ‘Hilton’ falado perde o ‘n’ de qualquer forma. Ao contrário dos meus avós, meu pai, homem erudito, nunca nos registraria ‘Élio’ e ‘Ugo’ – sons!, não nomes escritos e assinados. Pior, ‘Élio’ não vem do Latim, não significa sol e não dá nome ao He, gás nobre de massa atômica 2. Por isso esse “htrauma” me parece tão importante quanto o acento do ‘e’.

Coisas do ‘h’, letra paradoxal que deve ser escrita, mas não pronunciada. É uma “letra ociosa de tradição respeitável” cuja existência tem sido posta em cheque há mais de 2000 anos.

O ‘h’ tem origem na letra ‘het’, oitava do alfabeto fenício, que, por sua vez provém ou dos ideogramas egípcios que representam cercas, ou do símbolo proto-sinaítico que representa uma trança. Adotado pelos gregos, ganhou sua forma maiúscula atual, mas já tropeçando: os gregos orientais o substituíram por algo semelhante à vogal ‘e’. Incorporado ao Latim, nunca teve papel bem definido, denotando algo como um ‘j’ levemente aspirado. Parece ter perdido seu som já no século II. Mas não sem defesa; Ludovico Dolce o defende apaixonadamente em seu “Eloqüência” e Santo Agostinho diz preferir um pecador àquele que não o pronuncia adequadamente.

Félix Méndez, humorista, brincava escrevendo “herudito”, já que a letra se adapta muito bem ao significado da palavra. E são justamente os eruditos os responsáveis pela permanência do ‘h’ no nosso idioma. As línguas neo-latinas nasceram sem ele mas acabaram incorporando-o ou pelo contato com outras línguas, ou pela insistência dos eruditos renascentistas. No caso das ibéricas foi reintroduzido pela influência direta do Latim, já no século XIII.

Na história mais recente serviu para diferenciar o ‘v’ do ‘u’ e, ainda hoje é utilizado para conferir nota: ah!, eh!, oh!. Em vários nomes e marcas ganhou som, mas também é usada muda para conferir exotismo e diferença.

É uma letra muito discutida no “Acordo ortográfico da Língua Portuguesa”. Aparece no meio das palavras sempre compondo dígrafos; ‘ch’, ‘lh’ e ‘nh’ são de uso corrente, enquanto, ‘ph’ e ‘th’, de origem hebraica podem ser mantidos apenas em nomes bíblicos, ressalvados os casos em que, invariavelmente mudos, devem ser eliminados. O ‘h’ inicial e final ganhou um capítulo especial. O inicial deve ser usado ou por força de etimologia (“hera”, “hoje”, “hora”) ou devido à adoção convencional (“hã?”, “hem?”, “hum!”). Deve ser suprimido quando o uso consagra assim, apesar da etimologia (“erva” em vez de “herva”) e também quando composto sem o hífen (“desarmonia”, “desumano”, “exaurir”). O ‘h’ final pode ser empregado apenas nas interjeições “ah!” e “oh!”.

(SALVADOR, Gregório; LODARES, Juan R. “H: Ortografía fatídica”. In: —. História de las letras. Madrid: Espasa, 1996. pp.87-98. e Dicionário Brasileiro Globo Multimídia v.1.0, Globo, 1997)

Letra N