Discute obra da artista, relacionando-a ao processo de dessacralização típico do pós-modernismo e definindo-a como resistência.
Tracey Emin, Automatic Orgasm, 2001, applique blanket, 263x214cm

Tracey Emin, Automatic Orgasm, 2001, applique blanket, 263x214cm.

come unto me
every time
I feel love
I think Christ
in going to be
crucified
so I close my eyes and I
become
the cross
so beautifull1

Vi Automatic Orgasm pela primeira vez como thumbnail e meu olho atendeu a uma imagem atraente; mas quando o texto constrangedor ficou legível, o que aflorou foi uma imagem trágica — difícil de ver, mas que prende o olhar, como imagens de desastres... Dizem que Tracey mostra o mundo de uma forma que jamais vimos, mas o que ela realmente faz é nos impor o mundo que não queremos ver.

A relação entre religiosidade e sexualidade é imediata e vem se tornando cada vez mais importante pelo incremento da repressão anacrônica ao uso de preservativos, à liberdade de opção sexual etc. Ao criticarmos o fundamentalismo religioso, geralmente defendemos ou a relativização das liturgias ou a dessacralização do sexo. O que Tracey faz é justamente o oposto; ela enfrenta o tabu e com isso nos faz perceber que todo judaico-cristão sofre até (e talvez principalmente) na hora do orgasmo.

Tracey é perigosa! Imagine o panô como estandarte em uma manifestação de prevenção à AIDS... Naquela minha primeira impressão, veio à memória as bricolages muito comuns nos anos 70, mas com radicalidade notável!

Entretanto, em um artigo para o New Statesman, D.J. Taylor, comparando-a aos artistas boêmios e hippies, massacra:

Judged by one set of values, Tracey Emin and Damien Hirst look like exactly the kind of people who would have stood drinks to Nina Hamnett at the bar of the Wheatsheaf. Judged by another set, they are merely the worst kind of establishment pets (TAYLOR, 2002).

Mas o que foi desejável para o artista modernista, como ser a “Rainha da Boemia” e manter-se idealmente à margem da sociedade burguesa, não é mais possível hoje em dia. Ao contrário, o desejável — por ser o possível? — é uma postura de resistência, de guerrilha. Atualmente o capital tem muito mais armas para combater posturas idealistas que contra posturas erosivas — ao menos na esfera da cultura e das artes. A persistência narcisista e vulnerável, em alguns casos, conformista, em outros, subversiva de Tracey parece um tipo de “ruptura durante a continuidade” (me desculpem os adornianos se não usei corretamente a expressão).

Lipovetsky, analisando o pós-modernismo, descreve um fenômeno especialmente aplicável a boa parte da obra de Tracey e também ao Automatic Orgasm:

Embarcamos num processo interminável de dessacralização e dessubstanciação do sentido que define o reino consumado da moda. Assim morrem os deuses: não na desmoralização niilista do Ocidente, nem na angústia do vazio dos valores, mas nos solavancos do sentido (Lipovetsky, Império do Efêmero, apud LIPOVETSKY&CHARLES, 2004, p. 30).

Ela cabe tão perfeitamente no envelope do “narciso dos anos pós-modernos, hedonista e libertário” que algo parece estar errado. A falta de modéstia tão pouco britânica e tão pouco feminina, as recorrentes aparições em tablóides, a aparente ausência de mediações entre a autobiografia e obra, resultando em críticas como “simplesmente documentarista biográfica”, “crua”, “primitiva”, “desinteressante”, “mal informada”, tudo parece construído. Ela mesmo afirma: “Of course everything I do is edited, considered and its final production is very much calculated” (Emin apud MCGRATH, 2002 ).

Parece um erro, portanto, simplesmente ler Automatic Orgasm. Resgatando a imagem em si, nota-se uma certa fatura, preocupações composicionais, planos que privilegiam determinadas informações, alguns toques adocicados e a própria técnica construtiva do aplique, geralmente associado ao universo feminino. Mas há ali letras e principalmente espaços entre letras que denotam intertextualidade. A humanidade são os indivíduos conectados e o que Tracey constrói são diálogos entre intimidades. O texto pode ser autobiográfico, mas a biografia traumática no entre letras é do observador (de todo mundo, portanto).

Vista por este prisma, Tracey torna-se ainda mais perigosa porque quem se torna a cruz somos nós, não ela.

Notas

1 – venha em mim/toda vez/que sinto amor/eu penso em Cristo/a caminho da crucificação/então eu fecho meus olhos e/me torno/a cruz/tão bela

venha em mim/toda vez/que sinto amor/eu penso em Cristo/a caminho da crucificação/então eu fecho meus olhos e/me torno/a cruz/tão bela

Bibliografia

LIPOVETSKY, Gilles; CHARLES, Sébastien. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004.

LIPOVETSKY, Gilles; CHARLES, Sébastien. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004.

MCGRATH, Melanie. Something's wrong: Melanie McGrath on Tracey Emin. Tate, London: n. 1, oct. 2002. Disponível em: <http://www.tate.org.uk/magazine/issue1/something.htm>. Acesso em: dez. 2004.

MCGRATH, Melanie. Something's wrong: Melanie McGrath on Tracey Emin. Tate, London: n. 1, oct. 2002. Disponível em: <http://www.tate.org.uk/magazine/issue1/something.htm>. Acesso em: dez. 2004.

TAYLOR, D.J. Tracey Emin - Artists on an Eternal Picnic: Bohemians such as George Barker Lived in Creative Chaos on the Margins of Mainstream Society. Are Tracey Emin and Damien Hirst Trying to Imitate Them? New Statesman, London, v. 131, n. 4614, 18 nov. 2002.

TAYLOR, D.J. Tracey Emin - Artists on an Eternal Picnic: Bohemians such as George Barker Lived in Creative Chaos on the Margins of Mainstream Society. Are Tracey Emin and Damien Hirst Trying to Imitate Them? New Statesman, London, v. 131, n. 4614, 18 nov. 2002.

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