Sobre como foi difícil entender e o que consegui entender até agora sobre pesquisa em artes.
Cézanne, Madame Cézanne em Vermelho, 1890-1894, óleo sobre tela, 89x70cm. Fonte: MASP.

Cézanne, Madame Cézanne em Vermelho, 1890-1894, óleo sobre tela, 89x70cm. Fonte: MASP.

Fui criado em um ambiente científico. Meus pais são ambos pesquisadores e professores de Medicina Veterinária. Quando criança, o que me atraía eram os laboratórios, suas manipulações e alquimias. Mais velho, passei a compreender melhor a realidade da pesquisa científica: o método. Hipótese, materiais e métodos, estatística, revisão bibliográfica eram discussões corriqueiras. Todo aquele racionalismo parecia infalível!

Estudando História, me interessei sobremaneira por suas questões metodológicas. Até as primeiras décadas do século XX, ela não era considerada ciência devido à impossibilidade de experimentação. Achava isso um absurdo e me excitava refazer os passos da Escola dos Annales em seu combate contra o positivismo, visando outorgar à História o status de ciência! Crítica documental, tipologia das fontes, história econômica versus mentalidades, meu apreço por Braudel e sua “longa duração” e minha defesa incondicional da perspectiva marxista eram meu futebol para mesa de bar. Nem a decepção profissional diminuiu meu entusiasmo pelo assunto.

Essa paixão por discussões acadêmicas foi um dos fatores determinantes para meu ingresso na Escola de Belas Artes da UFMG. Já havia decidido me dedicar inteiramente às artes, mas precisava de uma formação que incluísse a pesquisa e a reflexão.

Obviamente já tinha alguma noção de que aquele método me serviria pouco. Mas julgava que, de modo análogo ao que tinha encontrado na História, haveria em Artes Visuais uma construção metodológica. Pensava isso segundo os padrões das ciências humanas e que susto! Ao me aproximar mais, fiquei perdido. Como pesquisar a partir de hipóteses variáveis? Hipótese variável significa ausência de hipótese! Não bastando, como controlar o fato de que a pesquisa modifica o objeto à medida que teórico e artista são a mesma pessoa?

Demorei a compreender que não se trata de uma adaptação da metodologia científica, mas algo paralelo que produz outro tipo de conhecimento. (Não ria, lembre-se que fui criado por dois cientistas!) Custei a entender que nas artes a função da pesquisa não é explicar o processo de criação ou a obra, mas dinamizar essa criação.

A obra de arte pertence a um campo do conhecimento que é autônomo e opaco à abordagem racionalista. Tente explicar um poema de três linhas e logo haverá um livro com biografia, conceitos e discussões sobre estados supostamente abordados; um livro que se avoluma mais e mais sem ser, entretanto, suficiente. Pior acontece quando a obra é visual. A verbalização neste caso não só é insuficiente como ocorre em um meio estranho ao original.

Essa noção de que existe um pensamento visual inteiramente suficiente foi meu primeiro passo para compreender o que é a pesquisa em artes. Entendo-o hoje como algo tão autônomo que tenho reservas à abordagem estruturalista (que seria fácil de adotar, no meu caso) de que a imagem é uma construção metafórica e metonímica. Se a imagem é linguagem, pode sujeitar-se à tradução. Ora... tente traduzir Madame Cézanne em Vermelho. Quando o vi, senti um calafrio. Que obra poderosa! E o poder dela não está na figuração; há muito mais ali que uma mulher, mais que sua seriedade, mais que sua pose hierática. Vai além dos símbolos passíveis de interpretação, além do vermelho transbordante, além do “L” tendendo para a diagonal, além da simplicidade monumental. Existe ali um algo mais que só a imagem por si pode exprimir, algo indizível e que sempre escapa: “está na ponta da língua”.

Essa percepção da impossibilidade gerada pelo pensamento visual me parece próxima à proposição de Deleuze de que o pensamento só pode se concretizar na impossibilidade. Pensamento como o não pensado, como forma de criar uma verdade e não como mecanismo de conhecer uma verdade dada. Ela permite que a arte deixe de ser mera representação para ser real. De forma análoga, a pesquisa em arte não tem por objetivo conhecer o real, mas ajudar a criá-lo.

Para propor isso, Deleuze se baseou no Fora de Blanchot: um conceito/defesa da literatura pós-realista de Mallarmé, Kafka, Proust e outros. O Fora propõe o anonimato, a impessoalidade, o fim da idéia de interiorização, resultando na noção de arte como experiência exterior ao sujeito. Essa tem sido minha segunda chave para entender a pesquisa em arte.

Se o sujeito autoral torna-se desimportante para a compreensão da obra, ocorre um deslocamento daquele problema da fusão entre teórico e criador. O que o artista cria está fora dele, torna-se uma obra sem eu. A tão salutar distância para o esclarecimento pode ser alcançada, portanto, pela prática do Fora.

A pesquisa, neste contexto, ocorre como um intervalo entre a criação e o criado. Intervalos são momentos especiais que nos permitem captar um objeto pela falta, pela ausência. O que está entre criador e criatura, sendo o artista também o teórico — presente, portanto — é a essência buscada da obra.

A pesquisa transforma-se em intervalo justamente pela sua própria incapacidade de fazer conhecer o objeto estudado. A ausência da obra e a necessidade causada por ela nos permite vislumbrar o que realmente importa. Isso acrescenta-se à obra enriquecendo-a e ao artista; e transforma-se na mola que impulsiona novas criações já que, modificados, artista e obra geram novos vazios e novas pesquisas.

Podemos compreender pesquisa em arte como busca incessante de novos repertórios, de novas necessidades. Ela não é necessariamente acadêmica e se confunde com a experimentação verdadeira do artista contemporâneo, um dos aspectos fundamentais que concorrem para a qualidade da obra de arte hoje.

A pesquisa em arte é aquele laboratório que tanto me atraía quando era criança.

PS

200709 — Por “reservas à abordagem estruturalista”, não entenda repulsa ou abandono. Hoje em dia, tendo lido melhor – principalmente – Barthes, tenho uma outra visão do estruturalismo.

200507 – Eduarda (FUNDARTE, Montenegro) pede indicação de leitura sobre o Fora de Blanchot.

O pensamento do Fora é uma proposição que começa com Blanchot analisando Mallarmé, continua com Foucault analisando o poder como relação de forças e chega a Deleuze. Uma ótima introdução sobre o assunto é A Experiência do Fora, de Tatiana Levy, editora Relume-Dumará.

200411 — PesquisaArtesBibliografia.

comentários

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De simone jares, Ananindeua-Pará, em 20/03/2011

Hélio, gostei de suas observações sobre a pesquisa em artes. Tô no início de uma pesquisa em torno do cotidiano e suas práticas em área de BR, que é o território de minha existência desde a infância. Interessa-me as táticas de reinventar o espaço público operadas pelos ambulantes, prestadores de serviços ligados ao transporte, caminhantes da BR. Tenho observado o movimento das pessoas e a quase ausência dele a partir da performance dos errantes q perambulam pela BR. Fotografo e filmo momentos do dia ou do início da noite, ao sabor de suas aparições, mas ainda não consegui visualizar um caminho metodológico p essa pesquisa.Gostaria de saber sua opinião. Sou historiadora de formação, mas agora encontro-me fazendo mestrado em artes, aqui em Belém-PA e, buscando meu caminho como artista.

De Romulo de Almeida Portella, Rio de Janeiro, em 29/08/2010

Hélio, que abertura você possibilita para posicionamentos em relação à pesquisa de Arte! Gostaria de ler essas tuas experiências ainda mais, pois transmitem algo pessoal, em termos de nos situar face ao desafio de uma pesquisa.

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