Sobre o filme Dogville de Lars von Trier.
Detalhe do papel de parede promocional do filme Dogville.

Detalhe do papel de parede promocional do filme Dogville.

Esse filme poderia se chamar “A vingança da Geni”. Anos 30 nos EUA. Dogville é uma pequena cidade vivendo a Grande Depressão. Seus cidadãos são bons e, tutelados moralmente por Tom, um jovem que se supõe escritor e conhecedor da alma humana, tornam-se ainda melhores acolhendo Grace, moça bonita e aparentemente rica, fugindo de gângsters. Dogville desafia o perigo e é solidária, mas impõe à moça um período probatório no qual deve conquistar unanimidade. Ela precisa ser útil para que todos gostem dela, mas ninguém parece precisar de sua ajuda. Mas como a cidade deve ser solidária, cada um aceita que a moça realize tarefas “que não precisavam ser feitas, mas que seriam boas se fossem feitas”. Tais tarefas melhoram a cidade e dão a Grace a sensação de que, pela primeira vez, construíra algo. Mas rapidamente Grace passa a ser explorada de todas as maneiras possíveis. Ela é estuprada diariamente, é escravizada, encarcerada e humilhada. Ela se resigna e se apaixona por Tom. A paixão é mútua e ele, que nunca pediu nada a ela e que nunca abusou dela sexualmente, tenta encontrar meios de libertá-la.

São oito longos e entediantes capítulos, num cenário teatral mambeme, com uma câmera tremida, com um narrador irritantemente distante. O espectador sente-se desconfortável, quer ir embora, largar aquele filme ruim. Mas algo o impede. Aquilo tem que ter um desfecho! Um final feliz! Há uma campanha silenciosa na platéia por um final feliz. Uma legenda anunciando o fim do filme aparece! A platéia emite um sonoro “ufa”! Mas qual seria um final plausível?

Tom, impedido de se saciar, vê-se enfraquecido e prestes a perder sua irretocável postura moral. Ele a denuncia. A platéia congela novamente. Esse final não é plausível! Só resta uma última possibilidade de final feliz: a vingança. E ela é realizada de maneira exemplar, toda a cidade, inclusive as crianças, é assassinada pelo gângster que, na verdade, é o pai de Grace.

Ninguém ri, ninguém fica feliz, mas é uma comédia. Cada um dos espectadores sai da exibição com uma grande torta na cara. Grace não estava resignada por medo de morrer, ela estava ali se punindo por ser arrogante. Tom não era apaixonado por Grace, não procurava salvá-la. Ela era parte de sua missão, era a afirmação de sua tese, a afirmação de seu próprio caráter. Tom também era arrogante. E nós? Nós somos a boa platéia que, de maneira arrogante, permanece para vencer o filme. Somos a boa platéia que torce para o massacre. Somos os EUA pós 11 de setembro.

Geni resolve não transar com o alienígena do “zepelim prateado”. É uma Geni arrogante.

PS

200405 — A contribuição de Thiago Carbonel (UNESP) é melhor que meu artigo.

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