Análise do conceito de avanço e recuo das cores em um quadro do artista.
Hofmann, The Gate, 1959-60

Hofmann, The Gate, 1959-60, óleo sobre tela. Guggenheim Museum.

Hans Hofmann acreditava que “todo o mundo, como nós o experimentamos visualmente, aparece-nos através do místico domínio da cor”; além disso, que na “pintura sinfônica, a cor é o verdadeiro veículo da construção” (AMGOTT, 2002, tradução nossa). A cor é o tema principal do quadro The Gate e de quase toda sua obra.

Sempre trabalhando como professor e como artista, influenciou boa parte dos expressionistas abstratos dos Estados Unidos, país para o qual se mudou logo depois da ascensão do nazismo na Alemanha. Sua principal contribuição foi repassar para os norte-americanos os novos conceitos de arte e pintura discutidos pelas vanguardas européias. Desenvolveu principalmente dois: o da essência bidimensional do plano pictórico e o do push and pull [avanço e recuo] das cores, isto é, a possibilidade de criar, através das cores e das formas abstratas, tensões entre forças e contra-forças, propiciando ao fruidor uma experiência de profundidade e movimento numa superfície plana sem usar a perspectiva clássica.

Esses dois conceitos se destacam em The Gate. Não existe no quadro qualquer referência ilusionista de espaço e não há qualquer intenção de esconder a bidimensionalidade da tela. Apesar disso, fica bem visível para nós como alguns retângulos tendem a saltar do plano enquanto outros tendem a recuar. Na verdade, todos os retângulos aparecem como que pregados à tela; alguns deles mais integrados, outros menos. [É interessante notar que Hofmann utilizava papeis coloridos pregados à tela para criar suas composições. Em alguns quadros, como Circles, de 1956, os manteve pregados com grampo.]

Áreas
 
Cinzas

Mas Hofmann não obtém tal efeito apenas pela utilização simples de frios e quentes; mas sim pela utilização consciente de uma gama indescritível de recursos colorísticos e tonais mesclados à forma e ao posicionamento da forma. Isso fica bem aparente se compararmos o grande retângulo amarelo do primeiro terço superior do quadro (área 1 na figura ao lado) com a forma da mesma cor que aparece no canto inferior direito (2). Eles têm o mesmo tom e aproximadamente o mesmo tamanho; a posição deles e a relação com os elementos circulantes fazem, entretanto, o retângulo avançar e a forma lateral recuar.

Prestando atenção também aos diversos tons de verde, azuis e violetas, gestuais e, aparentemente, pouco medidos, percebemos que, ao contrário, são utilizados ou para realçar ou para integrar a pintura. Um exemplo disso é o intervalo (4) entre o retângulo central vermelho (3) e o amarelo (1) logo acima. Há ali uma linha avermelhada e um retângulo violeta de tom bem escuro. A linha relaciona-se ao retângulo vermelho suavizando-o, enquanto o violeta ressalta o retângulo amarelo, sua complementar. Essa relação, inclusive, reforça a dos amarelos (1-2) ao fazer com que o retângulo avance ainda mais.

Outra relação interessante é entre o amarelo de tom mais claro à esquerda (5) e esse grande amarelo do terço superior (1). O amarelo claro, por ser mais luminoso, deveria sobressair (se retirarmos as cores, isso fica óbvio). Mas isso não ocorre justamente porque ele é esfriado pelo azul logo abaixo e, ao mesmo tempo, tem seu tom amenizado pelo cinzento logo acima.

Outros aspectos surgem quando avaliamos apenas os valores tonais do quadro. É surpreendente como Hofmann conseguiu limitar-se a aproximadamente três tons e ao mesmo tempo usar uma gama rica de cores. Os tons do The Gate são o principal fator de harmonia e são coadjuvantes importantíssimos para gerar uma sensação cinética.

Ocorre um movimento relativamente suave na parte central do quadro (unificada pelos tons), contrapondo-se a um movimento mais acentuado e brusco nas bordas. Nosso olhar é levado pelos tons claros a penetrar gradativamente na monumentalidade do grande vermelho central.

Bibliografia

AMGOTT, Madeline (Org.). Hans Hofmann: artist/teacher; teacher/artist. [S.l.]: PBS, 2002. Disponível em: <http://www.pbs.org/hanshofmann/>. Acesso em: 28 jul. 2003.

AMGOTT, Madeline (Org.). Hans Hofmann: artist/teacher; teacher/artist. [S.l.]: PBS, 2002. Disponível em: <http://www.pbs.org/hanshofmann/>. Acesso em: 28 jul. 2003.

HOFFMAN, Hans. Excertos de suas aulas. In: CHIPP, Herschel B. (org). Teorias da arte moderna. 2ed. São Paulo, Martins Fontes, 1999. p. 544-554.

HOFFMAN, Hans. Excertos de suas aulas. In: CHIPP, Herschel B. (org). Teorias da arte moderna. 2ed. São Paulo, Martins Fontes, 1999. p. 544-554.

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