Análise da função conceitual da cor, através da fragmentação e reconstrução das imagens do artigo anterior.
Colagem

Desfragmentação: em um processo semi-automático, pedaços das fotografias recortadas foram reunidos na colagem.

Reintegração: a partir da análise da colagem, foi realizada a pintura, buscando um equilíbrio mais natural das cores.

Movimento: a chave dessa experiência é a noção de que uma cor pode ter movimento relativamente maior que todas as outras. Dependendo da composição e das outras cores, esse movimento pode ser aumentado ou diminuído.

Pintura

No artigo anterior, analisamos duas imagens nas quais as cores predominantes eram essenciais para a compreensão da narrativa. Numa delas, a predominância do ciano/verde-azulado conotava um aspecto enlatado na imagem. Uniformizando a cor, foi possível enfatizar o encaixotamento do carnaval pela mídia. Na outra, o vermelho servia para mostrar a ambientação convulsiva da peça de teatro experimental ocorrida durante o FIT-2002. A oposição dessas narrativas demonstra como vermelho e ciano representam forças opostas se analisados separadamente.

Cada cor isolada

Ciano

O ciano é o meio termo entre o azul e o verde. Cabem, portanto, as afirmações de Kandinsky, sobre o azul:

É no azul que se encontra essa profundidade e, de maneira teórica, já em seu movimento: 1º – movimento de distanciamento do homem; 2º – movimento dirigido para o seu próprio centro. [...] O azul é a cor tipicamente celeste. Ele apazigua e acalma ao se aprofundar (KANDINSKY, 1996, p. 92).

... e sobre o verde:

O verde é o ponto ideal de equilíbrio da mistura dessas duas cores diametralmente opostas e em tudo diferentes [azul e amarelo]. Os movimentos horizontais anulam-se. Assim como se anulam os movimentos excêntricos e concêntricos. Tudo fica em repouso [...] (KANDINSKY, 1996, p. 93).

Podemos deduzir que o ciano tem tendência a um movimento concêntrico pouco acelerado, conduzindo ao repouso.

Vermelho

O vermelho, por outro lado, é a cor-movimento:

O vermelho tal como o imaginamos, cor sem limites, essencialmente quente, age interiormente como uma cor transbordante de vida ardente e agitada [...] (KANDINSKY, 1996, p. 97).

Ciano somado a vermelho diferente de ciano e vermelho

Quando as duas cores são reunidas, entretanto, formam um acorde e perdem muito de sua individualidade, justamente por serem cores complementares. Manipulando estes acordes é possível transformar a carecterística interna da cor, como fazemos a seguir.

Ciano em movimento, vermelho em repouso

Na colagem, a reunião das cores soma-se à fragmentação da forma (à ausência de imagens imediatamente reconhecíveis) e modifica completamente o conteúdo da composição resultante. O ciano, que tinha sido usado para imobilizar o movimento, transforma-se justamente no elemento mais cinético, já que agora podemos perceber melhor seus diversos tons. Já o vermelho acaba tornando-se, relativamente, o local de repouso na composição.

A ação do branco

O branco age como uma contra-forma fragmentadora. Mas é mais importante como componente colorístico que ressalta os tons claros presentes nas formas em ciano, enquanto aprofunda os tons escuros das formas vermelhas. Como aparece em grande quantidade, acaba sobrepondo o contraste dos valores ao das cores.

Vermelho em movimento, composição em repouso

Já na pintura, como o branco foi deixado de lado, o contraste das cores torna-se o elemento principal, gerando uma composição relativamente menos fragmentada. Nela o ciano aparece claramente como fundo para o movimento das formas em vermelho.

Isso ocorre não só pela ausência do branco, mas principalmente porque agora os diversos tons de ciano aparecem em blocos separados de tons-rompidos. Estes blocos dão peso aos elementos em vermelho, demandando a inclusão de elementos verticais para sustentar uma composição que não é mais uma narrativa, mas um monumento.

Bibliografia

KANDINSKY, W. Do espiritual na arte e na pintura em particular. 2ed. São Paulo, Martins Fontes, 1996.

KANDINSKY, W. Do espiritual na arte e na pintura em particular. 2ed. São Paulo, Martins Fontes, 1996.

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