Análise de duas fotografias relacionando cor ao conceito que elas pretendem expressar.

Argüido sobre a função da cor para a composição e para o tema de imagens, encontrei estas duas belas fotografias. Ambas procuram descrever acontecimentos que guardam entre si algumas semelhanças (ocorrer à noite, contar com a participação de multidões e ser baseado em movimentos e ritmos acelerados), mas também grandes diferenças: um é caótico e experimental, enquanto o outro é organizado e televisivo. A fotografia em vermelho é de uma peça teatral ocorrida na Praça da Estação em Belo Horizonte, durante o Festival Internacional de Teatro (FIT-2002). A fotografia em ciano é da transmissão do carnaval carioca.

Festival Internacional de Teatro (FIT-2002). Fonte: Bravo!, n. 59. Transmissão do carnaval carioca. Fonte: Bravo!, n. 65.

Festival Internacional de Teatro (FIT-2002) e transmissão do carnaval carioca. Fonte: Bravo! (números 59 e 65).

No caso do teatro, a foto, com predominância do vermelho e do vermelho escuro, chegando mesmo ao preto, visa demonstrar a ambientação obtida pela companhia que utiliza a multidão e a luz de chamas como cenário para representação da luta encarniçada entre o bem e o mal. A peça é de tal maneira movimentada, com música e efeitos sonoros estrondosos, com movimentação caótica e perigosa dos atores (com pernas-de-pau e máquinas aterrorizantes) entre a multidão, que leva mesmo o espectador menos sujeitável a participar ativamente do drama: seja com urros, seja movimentando-se febrilmente com a horda.

Em termos composicionais, o vermelho marca a área de ação, o palco. O fundo possui duas áreas cuja diferença tonal é abrupta, o que serve muitíssimo bem para demarcar dois lados completamente opostos. A diferença tonal também define os dois personagens: um em relação ao outro e cada um em relação ao fundo.

Graças à cor, a multidão, que aí representa o caos à margem da dualidade (dualidade absoluta, que é um não-caos cartesiano), torna-se indistinta. É possível reconhecer pessoas, mas é impossível reconhecer a qual lado cada uma delas pertence.

No caso da transmissão, ao contrário, o objetivo é demonstrar como a televisão afetou o carnaval transmudando-o de festa popular autêntica e ingênua em acontecimento regido por regras e preceitos que o tornam mais apresentável dentro dos padrões da estética dominante.

O ciano é a cor que melhor identifica a imagem gerada pelo aparelho de televisão. É a cor natural de qualquer fotografia de imagens produzidas pelo tubo catódico. Sem correção de cor, tais fotos são facilmente identificadas como imagens enlatadas.

O formato dinâmico das baianas, cones girando com múltiplos babados, a até bem pouco tempo prescindia da cor para a efetividade da evolução. Foi o encaixotamento ideológico que reduziu a amplitude de movimentos a cordões, impondo a necessidade de mais atrativos colorísticos — tão apropriados, diga-se de passagem, para a noção ideologizada de “popular” e “latino”: colorido berrante em movimento frenético.

Na foto, entretanto, a cor uniformiza o movimento da forma. Reduzindo-se a diversidade de cores, percebe-se um movimento cartesiano demais para uma festa popular brasileira.

PS

200306 — Leia a continuação deste artigo.

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