Sobre o prazer da cor e a ausência de cor na pintura contemporânea.

A cor é prazerosa e atua em nosso espírito como força necessária. Possivelmente não exista uma criança sequer que prefira grafite a lápis de cor. É justamente sua ignorância dos cânones do desenho imitativo que dá impulso a essa preferência. Sem um juízo de valor, ela preferirá aquilo que é mais prazeroso. Kandinsky, refletindo sobre as cores:

A cor [...] é um meio de exercer sobre ela [a alma] uma influência direta. A cor é a tecla. O olho o martelo. A alma é o piano de inúmeras cordas. Quanto ao artista, é a mão que, com a ajuda desta ou daquela tecla, obtém da alma a vibração certa. É evidente, portanto, que a harmonia das cores deve unicamente basear-se no princípio de contato eficaz. A alma humana, tocada em seu ponto mais sensível, responde. Chamaremos essa base de Princípio da Necessidade Interior (KANDINSKY, 1996, p. 68-69).

Esse “Princípio da Necessidade Interior” é hoje bem conhecido e cientificamente utilizado pela mídia e pelo cinema. Tornou-se recurso banal, por exemplo, colorizar gradualmente uma imagem ou ícone para enfatizar uma mudança de estado ou uma interação. Não só os marqueteiros, mas também alguns artistas abusaram das propriedades das cores e se utilizaram dela como recurso fácil.

Dentre diversos outros aspectos, foi essa banalização da cor o que mais contribuiu para o abafamento cor ou mesmo para a monocromatização da pintura atual. Isso é sinal de uma espécie de comedimento frente às constantes investidas sofridas pela pintura. Se a pintura é atacada como uma forma esgotada de arte, por que os pintores tentam se defender tirando de suas telas justamente aquilo que lhes dá substância? Isso parece um retrocesso e uma aceitação de fracasso.

Um quadro de características clássicas é geralmente um desenho monocromático no qual se coloca cores para o bem da idealização e da ilusão. Prova disto é que muito raramente perdem clareza e equilíbrio quando lhes tiramos a cor através da fotografia ou de meios digitais. É verdade que os artistas clássicos e neoclássicos se preocupavam com as cores; mas o faziam de uma forma que hoje consideramos obsoleta: como cada entidade do mundo real tinha, para eles, cores preestabelecidas era mister o artista organizá-las.

Não é errado abster-se da cor; Picasso o fez com bons motivos. Errado é abster-se dela em nome de um cânone como, por exemplo, respeitar o gosto atual dos decoradores por cinzas e terrosos. Cansados ou críticos da pintura anterior, eles estabeleceram esse cânone; mas ele, assim como todos os outros, é datado.

A pintura atual, sóbria e monocromática, é tão historicamente limitada quanto a da Geração 80, o alvo preferencial de suas críticas:

Hoje, 20 anos depois daquela primeira exposição-exaltação, o que restou é muito pouco, ainda mais se considerado relativamente. A maioria daqueles pintores então endeusados desapareceu, e sua pintura aparece nos livros como um capítulo da história, não como um exemplo de grande arte. As características de suas obras — grandes dimensões, pinceladas gestuais, colorido berrante — têm mais a ver com o espírito de época do que com a trajetória da técnica (PIZA, 2003, p. 48).

A acidez das críticas, entretanto, não leva em consideração dois aspectos da arte contemporânea: 1º) que não existe mais essa “grande arte” e 2º) que o mercado tem um papel predatório sobre os artistas, transformando-os em bólidos facilmente descartáveis. Ela não leva em consideração, também, uma contribuição importante destes artistas: o reencontro com o prazer.

O mundo hoje, entretanto, tem alcançado um patamar geral de conscientização de que é necessário evitar os extremos. Não é “8 ou 80”: precisamos sedimentar todas as contribuições do século XX e deixar de romper a ruptura da ruptura.

PS

200609 – Elizabeth Marques Ferreira (Escola de Belas Artes, UFRJ): “acho que hoje em dia há espaço no mundo da arte para diversas tendências e linguagens pictóricas. O importante é que o trabalho tenha qualidade.”

Claro. É isso mesmo. Há espaço para tudo e todos. Mas existe um embate. Minha opção pela pintura é sobretudo uma opção pela cor. Esse artigo já tem três anos e ainda hoje bato contra o “comedimento”, contra a noção de que é ultrajante pensar em arte pela via do prazer... Apesar de o noema da arte não ser o prazer — e isso todos concordamos, aqui no século XXI —, não há como simplesmente negar esse componente. Não me julgo capaz de formular completamente: discordo de Kant e de uma turma bem grande: acredito que o sublime está mais ligado ao prazer que ao terror... Se hoje fosse retomar esse tema, seria por essa via.

200802 – Segundo notícia da Folha (restrita a assinantes), David Batchelor lança no Brasil o livro Cromofobia (ed. Senac, trad. Marcelo Mendes; R$ 32, 144 págs.). Parece interessante.

Bibliografia

KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte. 2ed. São Paulo, Martins Fontes, 1996.

KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte. 2ed. São Paulo, Martins Fontes, 1996.

PIZA, Daniel. Depois da festa: os (poucos) sobreviventes da Geração 80. Bravo!, v. 6, n. 64, 2003, p. 48-49.

PIZA, Daniel. Depois da festa: os (poucos) sobreviventes da Geração 80. Bravo!, v. 6, n. 64, 2003, p. 48-49.

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