Discute se o computador pode ser o artista no projeto AARON de Harold Cohen.
Empate

Criança, meu pai me ensinou a jogar xadrez e, em família, jogávamos sempre. Cheguei a ler dois ou três livros sobre o jogo, mas nunca adiantou: perdia sempre. Não me importava muito perder, pois o que achava realmente divertido era jogar.

Um dia chegou o computador. Todos nós, coletivamente ou individualmente, tentamos ganhar da máquina ao menos uma vez. Não era um Deep Blue, mas bastou para que deixássemos de ser Kasparovs. Desde então, a família parou de jogar: xadrez tinha ficado sem graça.

Um dia desses um colega me entregou um papelzinho com uma URL (http://www.kurzweilcyberart.com), dizendo que eu estava ultrapassado... Que agora computador era artista.

Minha primeira reação foi praguejar que aquilo não era arte. Que como o computador não tinha intenção de fazer arte (já que computadores não têm intenção nenhuma), não havia ali arte alguma. A segunda reação foi comparar aquilo ao computador jogando xadrez; que tem a vantagem da frieza e do poder de cálculo; mas a desvantagem de não poder saborear a vitória e a inteligência do jogo. Mas me pareceram reações simplistas, mais preconceituosas e oriundas de traumas que propriamente ilustradas.

Resolvi, então, tratar sobre o assunto nesta coluna, tendo como hipótese que é arte sim. A ausência de intenção (ao menos no discurso), o automatismo e a ausência de um autor direto são, de certa forma, características familiares à arte desde o Dadaísmo.

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Impressões d'África

Roussel foi, fundamentalmente, o responsável pelo meu quadro La Mariée Mise à Nu par Ses Célibataires, Même. Suas Impressions d'Afrique me deram a idéia geral. Essa peça, que vi com Apollinaire, ajudou-me muito num dos aspectos da minha expressão. Vi imediatamente que o podia usar como influência (DUCHAMP, 1999, p. 401).

O que prendeu a atenção de Duchamp na peça de Roussel foram as diversas máquinas que faziam arte. Uma delas, descrita por Krauss:

[...] uma máquina de pintura: uma chapa fotossensível presa a uma roda com vários pincéis. As imagens das paisagens que incidem na chapa são registradas e transmitidas ao mecanismo que impulsiona os pincéis, que, por sua vez, registram a imagem em tinta sobre a tela (KRAUSS, 1998, p.86).

Havia também uma cabeça de Kant que produzia pensamentos pela ação de uma alavanca de arranque; ridicularizando o racionalismo mecânico que fundamentava o conhecimento humano na noção de causa e efeito.

Ready-mades

Se visarmos a crítica ao racionalismo, torna-se relativamente simples compreender os ready-mades de Duchamp. O que ele abandona é o vínculo causal entre artista e obra.

Muitos julgam o ato de selecionar e de retirar os objetos de seu contexto normal como um ato de autoria. Mas o que vem ao caso é a destruição do pressuposto da relação física entre artista e obra e a fundação da noção de arte conceitual: o processo artístico não precisa ser físico e não precisa resultar, necessariamente, em um objeto físico.

AARON, o artista cibernético

Achei infeliz ler que

AARON the Cybernetic Artist is an artist in the truest sense. AARON's approach to art, color and composition are authentic and reprensent the life's work of Professor Harold Cohen. AARON paintings have hung in museums around the world including London's Tate Modern Gallery, Amsterdam's Stedelijk Museum, the Brooklyn Museum, the San Francisco Museum of Modern Art and the Washington Capitol Children's Museum to name a few (KURZWEIL C.T., 2001)

Se trabalho de uma vida, então a “autenticidade” do AARON é indissociável da vivência de Harold Cohen. Isso é o mesmo que negar ao computador a criatividade que lhe atribuem diversos documentos existentes no próprio site. E dizer que o que ele faz é arte porque foi exposto em galerias é, no mínimo, idiota.

Então o computador é artista? Não! Para mim, AARON não é artista coisa nenhuma; mas o que ele faz é arte. Mas não é arte porque está no museu.

A arte aí não está nem no programa AARON nem no resultado desse programa; está no processo de criação de um programa capaz de fazer arte; está no conceito.

Quem é o artista?

Será que existe um artista por trás dessa arte? Vamos nos render àquela noção de vínculo entre causa e efeito? Só existe arte se houver um artista?

Se Harold Cohen abdicou da autoria1 “ensinando” um programa a pintar em vez de “usar um programa para pintar”, seu lugar em toda essa estória é mais o de pesquisador.

Poderíamos dizer que ele é o autor do conceito. Sim. Mas há uma contradição que nos impede declará-lo: o conceito é criar um programa artista — se Cohen é o artista, seu conceito não resultou em nada.

Ah... Mas o que impede Cohen de ser um artista que cria artistas? Essa é uma “sacada” vulnerável a toda sorte de discursos éticos... prefiro evitá-la.

Melhor é admitir a existência de um paradoxo que impede a identificação do artista por trás da obra; admitir que há uma quebra da noção artista-obra.

PS

200402 — Sobre os ready-mades, revi totalmente meu conceito depois de ler Eco, Umberto. Fotografias tiradas a paredes. In: —. A definição da arte. São Paulo: Martins Fontes, 1981. p. 181-187. Melhor é entender a poética da matéria, do acaso e também do objeto encontrado como um procedimento que funde aqueles dois momentos constitutivos da arte: a intenção formativa inicial e a pesquisa interpretativa final. Essa redefinição não parece, entretanto, comprometer muito o restante da argumentação.

Notas

1 – Cf., p.ex., WIEBE, [1996?].

Cf., p.ex., WIEBE, [1996?].

Bibliografia

DUCHAMP, Marcel. Pintura... a serviço da mente. In: CHIPP, Herschel B. (Org.) Teorias da arte moderna. 2ed. São Paulo, Martins Fontes, 1999.

DUCHAMP, Marcel. Pintura... a serviço da mente. In: CHIPP, Herschel B. (Org.) Teorias da arte moderna. 2ed. São Paulo, Martins Fontes, 1999.

KRAUSS, Rosalind E. Formas de ready-made: Duchamp e Brancusi. In: —. Caminhos da escultura moderna. São Paulo, Martins Fontes, 1998.

KRAUSS, Rosalind E. Formas de ready-made: Duchamp e Brancusi. In: —. Caminhos da escultura moderna. São Paulo, Martins Fontes, 1998.

KURZWEIL CYBERART TECHNOLOGIES, Learn about AARON‘s history, 2001. Disponível em <http://www.kurzweilcyberart.com/aaron/history.html>. Acesso em: 16 dez. 2002.

KURZWEIL CYBERART TECHNOLOGIES, Learn about AARON‘s history, 2001. Disponível em <http://www.kurzweilcyberart.com/aaron/history.html>. Acesso em: 16 dez. 2002.

WIEBE, Val. Not computer art! Making art visible, [1996?]. Disponível em <http://www.usask.ca/art/digital_culture/wiebe/differ.html>. Acesso em: 16 dez. 2002.

WIEBE, Val. Not computer art! Making art visible, [1996?]. Disponível em <http://www.usask.ca/art/digital_culture/wiebe/differ.html>. Acesso em: 16 dez. 2002.

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