Discute como a paisagem é descontextualizada e transformada em arte a partir dos anos 60

Desde os anos 60, têm sido apresentados uma infinidade de trabalhos e atividades cujo ponto comum é o fato de não serem pinturas, desenhos ou esculturas. Instalações, happenings e land art podem ser encarados como uma radicalização da discussão sobre a eliminação do quadro como suporte, cujas origens são o papier collé cubista, o ready-made de Duchamp e o objet trouvé surrealista.

A idéia da substituição da pintura pelo objeto é desnaturar a linguagem pictórica, gerando ou a total eliminação da figura ou mesmo a eliminação da linguagem, de forma que cada obra criasse seu próprio código. Exemplo disso é o Merzbau de Schwitters, cuja intenção era fazer uma obra não planejada e interminável, que adquiriria sentido e forma final apenas com a morte do artista:

Trata-se de uma espécie de architecture-collé, que se expande dentro da casa do artista [...] Todos os dias, Schwitters volta da rua com novos elementos para acrescentar à sua obra: hastes de metal, pedaços de espelho, rodas, telhas, a que adiciona retratos de família, cromos, etc. (GULLAR, 1999, p. 24).

Mas a ruptura radical com a linguagem pictórica seria estabelecida com o urinol-Fonte de Duchamp e com os objetos surrealistas, nos quais o deslocamento do objeto de seu contexto revela características ocultas dignas de fruição estética. Estabelecido o novo contexto do objeto, entretanto, não haverá o mesmo impacto. Para Gullar:

[...] a experiência mostrou que suas possibilidades expressivas são limitadas: a manifestação estética que não se constitui em linguagem está obrigada a viver da “invenção”, ou seja, da sacação arbitrária desta ou daquela idéia que nada tem a ver com a anterior (GULLAR, 1999, p. 27).

É mais interessante tomar a ausência de uma linguagem estabelecida como característica e não como algo negativo. E usá-la como chave para a compreensão da afirmação de que:

O Objeto é visto como ação no ambiente, dentro do qual os objetos existem como sinais e não simplesmente como “obras”. É a nova fase do puro exercício vital, onde todo artista é um propositor de atividades criadoras. O Objeto é a descoberta do mundo a cada instante, ele é a criação do que queiramos que seja. Um som, um grito podem ser um Objeto (Hélio Oiticica apud ITAÚ..., 2001, p. 3).

Intervenções no ambiente

É fato sui generis que a pintura Café Noturno: Exterior de Van Gogh tenha motivado os proprietários do café a pintar o prédio com cores semelhantes às do quadro. O artista fez uma releitura da paisagem, usando uma linguagem pictórica bastante própria, mas nunca objetivou a modificação da paisagem real.

Por outro lado, quando o artista sai da galeria, modifica a paisagem e depois a fotografa, sua obra não é a fotografia, mas a intervenção. A fotografia, uma linguagem artística bem definida, é apenas um registro de uma ação que tradicionalmente não se encaixaria no rótulo “arte”.

Arte póvera, ação excêntrica, arte impossível, land art etc. Vários nomes para atividades criadoras que por princípio devem ser diversas entre si, justamente por não possuírem uma linguagem comum: cada ação é a fundação de uma nova linguagem.

Um espelho apoiado no tronco de uma árvore, escondendo sua metade inferior e, ao mesmo tempo, refletindo a metade superior do tronco de outra; um plástico que, sobre a grama, fica turvo colhendo a “transpiração” desta; uma trilha de açúcar na Serra do Curral; uma faixa de plástico de 15m queimada; montes de carcaça ensangüentadas jogadas no Rio Arrudas: intervenções da mostra Do Corpo À Terra, em Belo Horizonte, 1970. Um homem que andando, indo e voltando, traça uma linha em um ponto distante do Peru; outro traça duas linhas brancas num deserto; curvas sinuosas feitas com colhetadeira numa plantação; montanhas, prédios e monumentos embrulhados com plástico: experiências de artistas em todo o mundo.

A diferença entre essas intervenções e a pintura é o fato que as aproxima. Se o motor que opunha os objetos à pintura era, inicialmente, o objeto tirado da paisagem, expropriado de seu contexto, se antes era a não-paisagem (e a não-figura), agora é justamente a paisagem quem é descontextualizada, modificada e transformada em arte.

A obra não será exposta num espaço consagrado às artes: ela é o espaço; transforma o espaço. Ela é transitória, descartável: a folhagem vai crescer, o lixeiro vai recolher, o vento vai apagar. Segundo dizem, a Trilha de Açúcar de Hélio Oiticica, executada por Lee Jaffe, não foi levada pelas saúvas, mas revirada pelos tratores das mineradoras.

Este caráter provisório, não mercadológico; aquela ausência de uma linguagem comum às intervenções artísticas, a ruptura com a tradição artística geram certo incômodo ao fruidor (será que ele precisa existir, inclusive?). Um incômodo com a medida certa para transmitir uma mensagem política.

Seja comentando o isolamento do homem na vida moderna, seja lutando pelo fim da ditadura militar, seja por causas ecológicas, todas as intervenções têm um motivo político, uma mensagem a transmitir usando linguagens novas (já que as antigas serviram a outros propósitos?):

Ali [anos 60/70], materiais precários e muitas vezes efêmeros anunciam a possibilidade de a arte se desgarrar de seus aspectos mais objetuais, coisificados e particularmente mercadológicos, para exercer papéis sociais e políticos (CANTON, 2001, p.23).

Pela primeira vez o artista obtém certo poder de modificar a realidade e ainda manter-se artista. Recente, a intervenção artística tem mais questões a resolver que características estabelecidas.

De um panfleto manuscrito para a Situação T/T.1 de Artur Barrio (PALÁCIO..., 1999, p. 12):

8......LI.....BERD...ADE.......

PS

200710 — Ariel Ferreira (UFMG), citando o evento Objeto e Participação concomitante à exposição Do Corpo à Terra, comenta sobre a participação do público na obra ter sido condição geradora da própria obra.

Minha pergunta sobre a necessidade do espectador dirige-se só à land art.

200311 — Helen Danuse (UNOCHAPECÓ - Xanxerê/SC) cita Celso Favaretto e sua proposição de usar o termo “objeto de arte” no lugar de “obra”. Diz, ainda, que “o espectador já não o é mais”.

Não acho tão importante a mudança de termo, mas sim a ampliação do conceito de “obra”, deixando de lado, inclusive, a materialidade. Largo senso é isso mesmo. Sobre o espectador, acho muito interessante a homonimia “espectador” / “expectador”. Com “x”, significa aquele que permanece na expectativa. O espectador-expectante, ou passivo, não existe mais.

Bibliografia

CANTON, Katia. Novíssima Arte Brasileira: um guia de tendências. São Paulo: Iluminuras, 2001.

CANTON, Katia. Novíssima Arte Brasileira: um guia de tendências. São Paulo: Iluminuras, 2001.

GULLAR, Ferreira. Argumentação contra a morte da arte. 7ed. Rio de Janeiro: Revan, 1999.

GULLAR, Ferreira. Argumentação contra a morte da arte. 7ed. Rio de Janeiro: Revan, 1999.

ITAÚ CULTURAL. Do corpo à terra: um marco radical na arte brasileira. Belo Horizonte: Itaú Cultural, 2001. Catálogo de exposição, Itaú Cultural Belo Horizonte, 26 out. 2001 a 25 jan. 2002.

ITAÚ CULTURAL. Do corpo à terra: um marco radical na arte brasileira. Belo Horizonte: Itaú Cultural, 2001. Catálogo de exposição, Itaú Cultural Belo Horizonte, 26 out. 2001 a 25 jan. 2002.

PALÁCIO DAS ARTES. Artur Barrio na coleção Regina e Delcir da Costa. Belo Horizonte: Fundação Clóvis Salgado, 1999. Catálogo de exposição, Palácio das Artes, Galerias Genesco Murta e Arlinda Corrêa Lima, 14 dez. 1999 a 2 fev. 2000.

PALÁCIO DAS ARTES. Artur Barrio na coleção Regina e Delcir da Costa. Belo Horizonte: Fundação Clóvis Salgado, 1999. Catálogo de exposição, Palácio das Artes, Galerias Genesco Murta e Arlinda Corrêa Lima, 14 dez. 1999 a 2 fev. 2000.

comentários

Envio de comentários desativado. Para contato pessoal, por favor, utilize .

De Milena Marinho, França, em 27/03/2011

A questao dos happenings, land art et intervençoes artisticas em geral, do Brasil nos anos 60 esta ligada tambem à ditadura da epoca. Por serem efemeras, estas obras permitiam uma maior flexibilidade ao artista, que podia passar a mensagem desejada naquele momento, de grande censura.

Unless otherwise expressly stated, all original material of whatever nature created by Hélio Alvarenga Nunes and included in this website is licensed under a Creative Commons License.

Validar XHTML Validar CSS