discute o significado da curva nas artes plásticas

O senso comum define “reta” como o caminho mais curto entre dois pontos. É fácil, familiar. Mas como definir “curva” nos mesmos parâmetros? A própria geometria nos prega uma peça, classificando a linha reta como “curva plana do primeiro grau”. Não seria incorreto dizer, portanto, que as curvas são vistas como exceções às retas. São estranhas ao senso comum — impregnado por noções criadas no Renascimento. São estranhas ao Renascimento também?

O círculo no Renascimento

A idéia de perfeição no Renascimento estava intimamente ligada ao quadrado e a curva só seria perfeita se concebida em função desse. Em última instância, apenas o círculo ou seus arcos múltiplos de 90° seriam perfeitos.

Leonardo da Vinci, O Homem Vitruviano, c. 1490.

Leonardo da Vinci, O Homem Vitruviano, c. 1490.

Da Vinci não provou a perfeição do homem, ele elaborou uma forma de tornar o homem “perfeito” encaixando-o em formas consideradas perfeitas. Entre as duas formas, entretanto, é o quadrado que se destaca, já que ele é a base para os pés, a medida da altura e o limite da extensão “natural” dos braços.

O quadrado é a base estrutural do Renascimento e o círculo, o elemento de variedade e de composição.

Um edifício totalmente quadrado é pouco interessante. Um quadro cuja composição é quadrada é hierático. Como torná-los interessantes sem com isso torná-los imperfeitos? A solução estava nos arcos plenos (180°) e na composição circular.

A composição circular gera o direcionamento do olhar para o centro do quadro, onde repousa o tema principal. Do tema principal, nosso olhar é guiado para o ponto de fuga. Era, portanto, a forma ideal de tornar o quadro mimético e interessante, bem como meio para salientar a recém inventada perspectiva.

Aos olhos modernos, porém, o círculo torna a cena estática, fechada, finita. Wölfflin atribui a característica de “forma fechada” à arte do século XVI e a define da seguinte maneira:

Por forma fechada entendemos aquele tipo de representação que, valendo-se de recursos mais ou menos tectônicos, apresenta a imagem como uma realidade limitada em si mesma, que, em todos os pontos, se volta para si mesma (WÖLFFLIN, 1989, p. 135).

Leonardo da Vinci, A Virgem dos Rochedos, 1483 (versão do Louvre).

Leonardo da Vinci, A Virgem dos Rochedos.

Diego Velázquez, A Forja de Vulcano, 1630.

Diego Velázquez, A Forja de Vulcano, 1630.

Diego Velázquez, As Fiandeiras, c. 1660.

Diego Velázquez, As Fiandeiras, c. 1660.

A Virgem dos Rochedos mostra o momento em que São João é apresentado a Cristo. Refinado, elege como tema central o espaço entre os dois meninos, local de um contato místico para o qual olha a Virgem. O movimento dos nossos olhos parte do manto vermelho e verde do anjo Uriel e é guiado num movimento circular, passando pelos meninos até a Virgem que nos guia (pelo olhar) de volta ao centro. Fruímos o quadro; falta sair dele. Do centro o contraste e as linhas de fuga nos levam à saída (ou à entrada?) da gruta.

A elipse e o Barroco

O Barroco tem como princípios de beleza a infinitude, o movimento, os contrastes. Como subverter a finitude, o caráter estático e a suavidade dos clássicos? Que tal subverter sua forma “perfeita”, transformando quadrado em retângulo?

Ora, se o círculo e a composição circular se baseavam no quadrado, eles se transformam em elipses. Essa nova forma de composição parece favorecer o movimento. A maior velocidade do olhar nos focos da elipse nos jogam para fora do quadro.

Tomemos como exemplo duas obras de Velázquez. Apesar do clima predominantemente intimista dessas obras, algo nos leva para fora. Mesmo cercadas por elementos tectônicos, são abertas e cheias de movimento.

Na Forja de Vulcano os ferreiros não interromperam seu trabalho apesar da surpresa. O foco direito da elipse é o ponto de maior movimento: um homem é o mais surpreso de todos, outro, o que faz mais força. No outro foco, está o tema principal, magnífico e poderoso. O centro do quadro, mesmo vermelho, é apenas o metal sendo preparado para o porvir.

Em A Fiandeiras, o mesmo fenômeno ocorre: os focos da elipse são o lugar do movimento. À esquerda a roca continua girando e a conversa parece bastante animada. À direita, uma mulher estende o fio repetidamente, enquanto outra lhe trás mais um pesado cesto. A mulher do centro, obscura, é apenas nossa anfitriã para o próximo cômodo, onde senhoras da Corte compram, alegremente, o resultado de todo o trabalho.

No Barroco a curva fica mais familiar e adquire papel principal, já que é movimento múltiplo, “imperfeição” e beleza. O Barroco, assim como a curva, também é visto pelo senso comum como estranho, como exceção ao Clássico. Haverá ai alguma relação?

Desestruturando a curva

O quê, afinal, é “curva”? É possível defini-la em termos específicos? Kandinsky e Klee, quando professores da Bauhaus, teorizaram sobre a forma e podem nos ajudar1.

Kandinsky

Para Kandinsky, o ponto é o princípio, o primeiro contato da ferramenta de desenho com a superfície. Ocupando o centro, é a composição mais básica e equilibrada.

Esse axioma nos parece bastante natural, pois nos remete ao senso comum impregnado por concepções clássicas. Como o ponto é idealmente circular, seu posicionamento central é, por derivação, a composição circular à qual estamos familiarizados.

A linha é o segundo estágio. Ela é formada pelo movimento do ponto. À ação de uma força, corresponde uma reta; à ação de duas, uma curva.

Isso nos remete à idéia de que a curva possui mais movimento. Se pensarmos em termos de equilíbrio de forças, podemos chegar à noção de que a elipse possui ainda mais movimento que o círculo. Sem entrar demais no terreno da física, sabemos que o círculo será formado pela ação de duas forças imutáveis. Na elipse, diferentemente, essas forças vão variar.

As linhas podem ser classificadas, qualificadas e consideradas precursoras de formas. A chamada “quebrada obtusângula” (150°-180°) é precursora da curva e do círculo. Essa relação é factível matematicamente: o PI foi calculado por Arquimedes (III a.C.) a partir de um hexágono de 96 lados.

Num processo metódico de qualificação dos diversos tipos de linha, Kandinsky concluiu que a “quebrada obtusângula” é “fria” e que, por conseqüência, as formas circulares são principalmente azuis.

Para provar este axioma, Kandinsky promoveu algumas pesquisas estatísticas, extremamente criticadas. Mas essa relação círculo / azul não é totalmente arbitrária se levarmos em consideração a tradição clássica.

Temos a sensação de que as curvas têm maior contato com o plano, que as formas circulares “puxam” nosso olhar para o fundo do quadro. Isso é perceptível nas obras Renascentistas, nas quais é comum um arco pleno definir o fundo. Também é comum e “natural” o azul preencher estes arcos — várias academias, inclusive, postulavam que a cor azul deveria ser usada somente no fundo.

Comparando as figuras Balão Vermelho e Em Volta do Peixe (abaixo), percebemos que seu colega Paul Klee trabalha essa noção de duas formas distintas. Na primeira, para gerar impacto e para aproximar o balão, o preenche com vermelho. Na segunda, ao contrário, para distanciar e envolver o peixe, preenche o prato com azul.

Finalmente, Kandinsky nos lembra que um ângulo que se amplia forma um setor circular. Essa afirmação também não é gratuita se pensarmos que os 360° são baseados na observação egípcia da órbita aparente do Sol em torno da Terra. É desnecessário discorrer sobre a importância real e mental do Sol na vida do homem, em todos os tempos. Devemos lembrar apenas que sua observação levanta questões interessantes sobre temperatura e movimento.

Klee

Paul Klee, Balão Vermelho, 1922.

Paul Klee, Balão Vermelho, 1922.

Paul Klee, Em Volta do Peixe, 1926.

Paul Klee, Em Volta do Peixe, 1926.

Para o observador terreno, o movimento do Sol é circular, perfeito e, sobretudo, contínuo. Essa constatação nos remete à teoria da “curva cósmica”, segundo a qual o Universo e a natureza são definidos pelo movimento. A continuidade do movimento proporciona a sensação de vida.

Para Klee, essa noção do “movimento como norma” pode ser derivada para a representação artística, a partir da relação entre os diversos tipos de linha.

Podemos classificar as linhas em três tipos:

Estes tipos de linha se relacionam como partes de um movimento ativo-medial-passivo que é recorrente na natureza. A circulação sangüínea, é um exemplo, estando o coração na parte medial, os pulmões na ativa e os demais órgãos na passiva.

É interessante destacar que a noção de movimento está, todo o tempo, associada à idéia de ciclo. E que esse ciclo tem um centro e dois focos. Poderíamos dizer, portanto, que Klee parte da noção circular (renascentista) e a desenvolve num sentido elipsoidal.

Esse desenvolvimento do “movimento cósmico” ao movimento em elipse é impulsionado pela influência da gravidade, pois as representações criadas pelo homem são representações essencialmente terrenas.

Sendo um vanguardista, entretanto, Klee devia subverter essa constante natural. Propõe, então, a idéia das espirais da vida e da morte. É viva a tendência à expansão e morta a tendência ao colapso. Numa clara relação com as modernas teorias de expansão do Universo, percebemos um forte ideal anti-clássico.

Se transportarmos essas noções para a representação artística, voltamos novamente ao antagonismo Renascimento-Barroco, entre o círculo imutável e a elipse, entre as composições nas quais o ritmo é constante e aquelas cujo ritmo varia.

Exemplos

Pablo Picasso, Mulher Ao Espelho, 1932.

Pablo Picasso, Mulher Ao Espelho, 1932. O espelho, em elipse, parece revolucionar a imagem estática da mulher, que é composta por diversas formas circulares.

Paul Gauguin, Duas Mulheres Taitianas ou Os Seios Nas Flores, 1899. O antagonismo entre a delicadeza e o recato dos seios (circulares) da nativa e a bandeja (em elipse) que os serve torna o quadro sensual.

Paul Gauguin, Duas Mulheres Taitianas ou Os Seios nas Flores, 1899.
Marcel Duchamp, Moedor de Café, 1911.

Marcel Duchamp, Moedor de Café, 1911. O círculo principal é formado pela expansão do ângulo entre a manivela e a linha horizontal. Podemos pensar nesse movimento como “original”.

Georges-Pierre Seurat, O Circo, c. 1890. A sensação de movimento é ampliada pela utilização de curvas, tanto no picadeiro quanto no salto do acrobata.

Georges-Pierre Seurat, O Circo, c. 1890.
Henry Matisse, A Dança, 1909

Henry Matisse, A Dança, 1909. Mais uma vez amplia-se a sensação de movimento pela utilização de curvas – formando, neste caso, uma elipse.

Oscar Niemeyer, Memorial JK, 1981. Este monumento a JK gerou grande polêmica e é um exemplo da curva como subversão, recorrente em diversas obras de Niemeyer.

Oscar Niemeyer, Memorial JK, 1981

PS

200605 – Denise Andrade do Nascimento (UFRR, Boa Vista-RR) pergunta se reta e curva são linhas da mesma espécie e se uma pode ser medida e comparada em relação à outra.

No papel, quando usamos um lápis, estamos obtemos um traço (índice/indício) do contato do instrumento com o meio material. Se só é aplicada uma força perpendicular, o que obtemos é um ponto. Se, diferentemente, usamos várias forças, o que obtemos é uma linha. Se as linhas se intersectam, teremos então um plano. Estamos desenhando... Há uma matéria e uma história; aspectos fundamentais que diferenciam estes traços (ponto, linha, plano) da abstração matemática. Ao contrário da matemática, cada ponto desenhado é diferente; também nossa linha não é aquela de infinitos pontos, com origem e fim, e por isso não existem desenhadas duas linhas iguais. A matemática é uma abstração do real e o desenho é material, real, mesmo que resulte em uma “abstração”. O que está em jogo no desenho são as forças físicas e as da intenção. Houve épocas em que se tencionou inserir na arte algo da certeza e da racionalidade matemáticas, principalmente durante o Renascimento e mais recentemente nos estudos de Kandinsky e Klee. É sobre estes períodos que o texto trata, usando como mediação a reta e a curva, entendendo curva como exceção; isto é reta como comum e curva como incomum. Ainda: mais comuns seriam as retas paralelas e as perpendiculares e menos comuns as diagonais. Por “comum”, me refiro ao sentimento que surge com o racionalismo (Renascimento e Iluminismo) e que está impregnado em nosso modo de pensar. Ao organizar nossos móveis, nossos quadros e tudo mais pensamos em retas, não em curvas: alinhar é colocar reto. Além disso, o movimento retilíneo e uniforme é o que nos parece o mais “natural”, apesar de não existir na natureza que nos cerca... Mesmo hoje em dia a aceleração nos parece um descompasso; pior se não for uniforme. Reta, velocidade uniforme ou pelo menos aceleração uniforme: é tudo o que desejamos. Os exemplos se multiplicam... Nesse contexto, a reta é mais racional que a curva, o quadrado mais que o círculo e este mais que a elipse. A questão não é matemática, mas de intenção. O que está por trás deste tipo de racionalismo é o entendimento de que o mundo de Deus, o mundo perfeito, existe imutável. O racionalismo (e com ele a matemática, a física etc.) privilegiava a inércia e tentava ver o mundo como um relógio e Deus como o grande relojoeiro. Continua a dúvida... O que preferir: matéria ou abstração? Se você vergar uma régua a medida dela muda? Depende de qual medida estamos falando, não é?

200405 — Rosângela Salles (Passo Fundo, RS) pergunta qual a justificativa matemática para o fato de a reta ser considerada uma curva.

Não sou matemático, mas se pensarmos curvas como representação gráfica de uma função, retas serão as curvas cujas funções são de primeiro grau.

Notas

1 – Foram usados como guia os textos sobre Kandinsky e Klee de Wick, 1989, p. 255-358.

Foram usados como guia os textos sobre Kandinsky e Klee de Wick, 1989, p. 255-358.

Bibliografia

WICK, Rainer. Pedagogia da Bauhaus.. São Paulo, Martins Fontes, 1989.

WICK, Rainer. Pedagogia da Bauhaus.. São Paulo, Martins Fontes, 1989.

WÖLFFLIN, Heinrich. Conceitos fundamentais da história da arte. São Paulo, Martins Fontes, 1989. p. 135

WÖLFFLIN, Heinrich. Conceitos fundamentais da história da arte. São Paulo, Martins Fontes, 1989. p. 135

comentários

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De Irailde Dias de Melo, Areial PB, em 25/08/2010

Foi muito bom, abrir este texto, pois neste momento estava precisando de um reforço na sala de aula, e mediatamente levei os alunos a sala de informática para pesquisa do conteúdo foi maravilhoso, eles adoraram as imagens e o conteúdo de complemento. Obrigada professora Irailde de História, Artes e Produção textual. 24/08/10

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